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10/02/2012

O palestrante e o assedio moral

Uma questão que quase não era motivo de preocupação dos palestrantes e empresas no passado, passou a ser: o assedio moral. Ao contrário de uma palestra para a qual são vendidos ingressos e os participantes vão de livre e espontânea vontade, palestras "in company" têm um caráter diferente.


O evento por ingressos é parecido a um espetáculo público, como um show ou teatro. Quem compra o ingresso para um "stand up comedy", por exemplo, está ciente de que o comediante poderá envolver o público em suas piadas e às vezes pegar pesado com alguém da platéia. Mas as pessoas estão ali porque querem estar e até pagam para isso.

Numa palestra "in company", na maioria das vezes o colaborador da empresa é obrigado a participar, pois aquilo é feito em horário de trabalho. É aí que entra o cuidado do palestrante e principalmente do RH da empresa na hora de escolher quem contratar. Muitas empresas de porte que me contratam avisam de antemão que a empresa rejeita palestrantes que exageram nos palavrões ou contam piadas de cunho sexual ou que possam ofender as pessoas.

Pelo menos duas que me contrataram tiveram uma experiência amarga em um evento anterior, quando, em uma, o palestrante disparou a cotar piadas de um determinado grupo étnico, por sinal o mesmo dos donos da empresa. Na outra o palestrante aproveitou o banner com a logomarca da empresa para tecer interpretações de cunho sexual dos desenhos que compunham a logomarca.

Uma vez, antes de participar de um evento, pesquisei os nomes dos palestrantes que ainda não conhecia e nos resultados do Google havia um processo contra um deles por contar um piadas de cunho discriminatório. Soube de outro palestrante que foi conduzido à delegacia ao encerrar uma palestra na qual fez piadas com gays.

Não raro alguns palestrantes se empolgam e envolvem a plateia, levando pessoas ao palco ou descendo para mexer com os participantes na audiência. Volto a dizer: isso pode ser levado na esportiva quando os participantes estão ali espontaneamente, mas existe um risco de algo ser interpretado pelo participante como assedio moral se a palestra for "in company" e ele estiver participando do evento contra a sua vontade.

Em duas palestras que assisti vi coisas que certamente não foram levadas na esportiva pela audiência. Em uma o palestrante zombou o tempo todo de um espectador da primeira fileira que era obeso. Em outra o palestrante quis fazer humor perguntando a alguns sobre sua preferência sexual e depois fazendo comentários que claramente humilharam a pessoa em público. Em nenhum dos casos o palestrante conseguiu o que pretendia, isto é, que fosse engraçado.

Agora pense na possibilidade de você fazer o mesmo em uma palestra "in company" e pegar para vítima de suas gozações justamente um funcionário que está desgostoso com a empresa e pensando em mil maneiras de como poderá pedir demissão levando uma gorda comissão. Aos olhos daquele funcionário você caiu do céu.

Estamos vendo um número cada vez maior de funcionários processando a empresa (e ganhando) por constrangimento em eventos internos. Hoje mesmo eu li uma notícia que dava conta do governo de São Paulo estar sendo processado por causa de uma palestra que um médico deu em uma escola estadual causando constrangimento em alguns. Esta outra notícia é de uma empresa condenada pelo constrangimento feito a um vendedor que foi obrigado a vestir uma fralda descartável e sofrer outras penalidades em público como castigo por não atingir as metas:

"Ambev é condenada a indenizar ex-empregado em R$ 100 mil, diz TST - Homem teria sido vítima de humilhação por não alcançar metas de vendas."

Se você quiser fazer humor e não machucar ninguém no processo, aqui vai a dica: faça humor consigo mesmo, seja você o tolo, o palhaço, o idiota da vez. Sua platéia irá rir, você ganhará seu cachê e todos viverão felizes. Leia mais sobre Humor aqui.

2 comentários:

Florival Scheroki disse...

Muito importante suas observações. Também realizo algumas palestras sobre temas diversos, sob o olhar comportamental.

O que leva algumas empresas a incorrer nestas situações é querer um palestrante que atue muito mais como animador de auditório. Outro fator é há empresas que querem gastar pouco com uma palestra e acabem contratando um profissional barato, que não tem o bom senso de equilibrar o objetivo da mensagem com o estado de ânimo da audiência. Infelizmente, tenho observado, em diversos casos, falta de qualificação dos contratantes de palestras. Alguns nem sabem especificar o objetivo da palestra, apenas o tema. Inclusive já proferi palestras sobre Assédio moral numa empresa de grande porte. São poucas as que se dispõem a tocar no assunto, com medo de um passado que as perseguem. E continuará perseguindo se não souberem escolher um modo antiassédio para abordar. Mais uma vez, parabéns pelo relevância e clareza do que apontou.

Saulo Segurado disse...

Bom dia. O grande problema é a falta de noção de boa parte dos palestrantes. Estas pessoas precisam entender que elas não estão ali para alimentar seu ego, sua única função é atender os objetivos do comprador da palestra. A medida de sucesso de um palestrante não é a audiência aplaudindo de pé no final da apresentação. O sucesso dos palestrantes é um comprador completamente satisfeito em relação ao seu objetivo inicial, disposto a fazer novos negócios e a dar indicações.

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