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23/06/2012

O palestrante e a conversa de elevador

Escrevo do quarto do resort onde estou hospedado para ministrar uma palestra daqui a pouco e falar de vendas e mudanças para representantes comerciais. Acordei cedo, fui ao restaurante tomar café e cumprimentei com um "bom dia" a todos os que fizeram contato visual. Eu não sabia quem era ou não do evento, portanto o melhor foi sorrir e cumprimentar.



Ontem à noite estive por um pouco na festa promovida pela empresa no hotel, mas não o tempo necessário para conhecer a todos ou gravar suas fisionomias. Por isso achei que aquele grupo que estava tomando café com um crachá pendurado no pescoço fosse o mesmo da noite anterior.

De uma das mesas uma mulher sorridente, das que cumprimentei com um sorriso, me convidou:

- Venha sentar-se conosco!

Sentei-me em uma mesa com mais 5 ou 6 pessoas e logo perguntei se o nosso evento era o único no hotel, pois vi que o restaurante estava meio vazio.

- Acho que não - respondeu ela. - Tem um outro grupo com evento aqui, pois ontem à noite eles estavam dando uma festa.

- Xi... - exclamei - então eu sou do outro grupo!

Descobri que estava na mesa de médicos reumatologistas participando de um encontro. O café foi muito agradável, pois logo se interessaram pelo assunto que veio à tona: a necessidade que também os médicos têm de saberem promover e vender seus serviços de forma ética. Obviamente o assunto surgiu depois que introduzi minha "conversa de elevador".

Todo profissional deve ter na ponta da língua uma "conversa de elevador", e o palestrante não é exceção. Trata-se de um script curto e preciso, nem um pouco do tipo propaganda, que diz tudo o que você é, faz ou vende. A "conversa de elevador" é sutil, nada intrometida, e usa um gancho para se manifestar. En passant.

Imagine que você esteja em um elevador em um prédio comercial e alguém comenta consigo mesmo ou com alguém ao lado:

-- Parece que vai chover...

É a deixa para você introduzir sua "conversa de elevador":

-- Ai, nem brinca... preciso viajar para fazer uma palestra e não gosto de dirigir com chuva...

-- O sr. é palestrante?

Se não terminar seu script ainda no elevador, desça no mesmo andar da pessoa que perguntou.

A conversa à mesa do café foi divertida e voltada às amenidades. Tudo o que fiz foi dizer meu nome, mas não achei que fosse conveniente distribuir cartões. E se você já leu algum livro de etiqueta deve saber que nunca deve dar a mão para cumprimentar ou se despedir de pessoas à mesa.

Nessas horas também é preciso evitar ser inconveniente e "vendedor" no mau sentido da palavra. Se quiser falar de seu trabalho vá introduzido com conta-gotas sua "conversa de elevador" e principalmente procure fazer perguntas sobre o trabalho do outro, porque todo mundo gosta mesmo é de falar de si.

Eu estava terminando meu café quando um outro médico veio juntar-se a nós. Achando que eu fosse médico, começou a apresentar à discussão de todo o grupo o caso de um paciente, enquanto um aqui e outro ali dava uma opinião. Fiquei boiando naquele oceano de termos médicos, portanto achei que aquele era o sinal para eu dar o fora. Mas não sem um "grand finale":

-- Se vocês me dão licença, preciso me preparar para minha palestra... E sobre o diagnóstico desse paciente, eu diria que é lupus. Não sou médico, mas assisto "House".

E foi assim que me despedi, deixando aquele grupo de médicos com uma boa impressão e muitas gargalhadas. Enquanto me virava para sair, ainda pude escutar o que tinha chegado depois dizendo:

-- E não é que pode ser lupus mesmo?


Um comentário:

Pedro Amancio disse...

Seu diagnóstico foi terrível, mas a história foi ótima!

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