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18/03/2013

Limites pessoais do palestrante

Todo palestrante deve ter seus limites, tanto os que determina para si mesmo, como os que sua capacidade -- ou a falta dela -- vierem a estabelecer.Traduzo livros de administração, marketing, comunicação e muitos outros assuntos, e quem trabalha como tradutor sabe que não será capaz de atender qualquer demanda.  Já me recusei a fazer traduções de livros técnicos de informática por minha capacitação e vocabulário não abrangerem esta área. Agindo assim procuro ser honesto para comigo mesmo e com o cliente. Com palestras não é diferente. Por ser um tradutor de conceitos, cada palestrante possui sua própria área de conhecimento, que certamente não é ampla o suficiente para abranger qualquer assunto. Por isso você deve evitar falar daquilo que não entende.



Por exemplo, faço palestras de comportamento seguro, saúde e meio-ambiente para eventos de SIPAT, CIPA e SIPATMA mas sempre deixo claro para o cliente que não sou engenheiro ou técnico de segurança e que minha abordagem é puramente comportamental. Também faço palestras de segurança da informação, porém procuro passar para o público noções básicas de comportamento na proteção da informação para leigos, e não detalhes técnicos de redes, software etc.

Outro cuidado que tomo como palestrante é o de nunca me intrometer no segmento do cliente. Um consultor pode até fazer algo assim depois de passar um mês internado na empresa do cliente estudando seus produtos, serviços, procedimentos, processos etc. Porém o palestrante é um visitante, alguém que estará munido apenas de informações básicas e não pode querer dar uma de doutor do segmento. Como um palestrante motivacional poderia querer dar palpites de procedimentos práticos para uma equipe de engenheiros de um fabricante de reatores nucleares? Ou sugestões de cores e estilos para uma confecção? Ou sugerir técnicas cirúrgicas para uma audiência de médicos? Ou ainda discutir fórmulas de medicamentos com uma plateia de profissionais de um laboratório farmacêutico?

Existem também limites que o palestrante deve traçar com base em suas crenças, valores e consciência, para não se prostituir vendendo-se para segmentos que sejam contrários àquilo que ele mesmo acredita. Para um palestrante comportamental este cuidado deve estar em seu DNA. Como eu poderia fazer uma plateia acreditar em algo em que eu mesmo não acredito ou que seja até contrário às minhas crenças e valores? Como eu poderia me sentir confortável violentando minha consciência só para garantir a venda de meus serviços? O que o palestrante coloca à venda são suas palestras, não suas crenças, valores e consciência.

Por esta razão defini alguns limites para os segmentos que costumo atender. Por exemplo, não trabalho com marketing político. Uma, por não entender de política. Com minha ignorância desse universo eu correria o risco de atender o candidato errado por ser incapaz de medir seu caráter e prever suas reais intenções quando eleito. Outra, porque muitos consultores, personal coaches e publicitários viram sua imagem ir para o vinagre quando surgiram escândalos envolvendo seus clientes.

Também não atendo o segmento de tabaco por ser pessoalmente contra o fumo. Quando digo "sou contra o fumo" não significa que eu seja contra o fumante. Respeito todos os seres humanos, independente do que gostem de fumar, comer ou beber, e também de seus credos, costumes, preferências sexuais, times de futebol etc., mesmo que não concorde com suas preferências. Por ter aversão ao cigarro eu não conseguiria motivar uma equipe de vendas deste segmento. No final de minha palestra ou treinamento os vendedores sairiam querendo vender menos, não mais.

O segmento de armas e munições eu também não atendo, não por ser contrário à sua fabricação -- polícia e exército precisam de armas e munições -- mas por pessoalmente sentir pavor de armamentos. Apesar de quando jovem eu ter caçado com espingardas e colecionado miniaturas de aviões militares, hoje não me sinto motivado a motivar um público a vender mais armamentos. Se você me convidar para participar de um campeonato de tiro ao alvo, posso até ir. Mas irei de fraldas.

Ultimamente deixei de atender também fabricantes de bebidas alcoólicas. Não que eu mesmo não aprecie um bom vinho ou consuma uma cerveja gelada. Gosto de tomar um cálice com a macarronada ou uma tulipa com a pizza. Mas com tantos jovens se arrebentando de beber para depois se arrebentarem literalmente no trânsito não me sinto mais à vontade para promover estes produtos. Algumas culturas tratam a bebida alcoólica como alimento, como aprendi a tratá-la com meu pai, mas infelizmente muitos hoje a consomem como droga.

Um último segmento que não atendo como palestrante talvez deixe você surpreso: igrejas e organizações religiosas. Apesar de ser cristão, convertido e atuante desde 1978, e de ter um trabalho evangelístico na Internet por meio de vídeos, áudios e textos que produzo nas horas vagas, não atendo organizações religiosas e nem falo deste assunto em minhas palestras.

Por causa da confusão reinante no meio religioso, alem de não atender igrejas e organizações religiosas, também não dou entrevistas para publicações e emissoras de rádio e TV dessas organizações. Você tampouco encontrará em minha lista de temas algo como "Espiritualidade na Empresa" por eu considerar o assunto tão sério que não seria capaz de pasteurizá-lo a fim de torná-lo palatável a todos os gostos e opiniões.

É neste ponto que você irá gritar: "Mas assim você está perdendo oportunidades e dinheiro!". Sim, e daí? O dinheiro não deve ser o principal motivador, nem do palestrante, nem de seu público. Se fosse, como você iria motivar pessoas que gostam do que fazem nas empresas onde estão, porém ganham menos do que gostariam de ganhar? Eu tenho certeza de que você encontrará plateias assim ao longo de sua carreira de palestrante.

Outro ponto que quero deixar claro: Você não precisa necessariamente ter os mesmos limites que eu coloquei em minha atuação como palestrante. Estes são os meus limites pessoais, baseados em minhas próprias crenças, valores e consciência. Não servem de padrão para você e seria uma hipocrisia alguém tentar agir dentro de crenças e valores emprestados. Você deve traçar seus próprios limites e ter bem claro em sua mente e coração a razão de cada um. Mas volto a lembrar que aquilo que o palestrante deve colocar à venda são suas palestras, não suas crenças, valores e consciência.


2 comentários:

Dilson Rodrigues disse...

Excelente!!! Como todos os outros textos. Não vou comentar em todos para não me tornar redundante, mas sou um palestrante em início de carreira e passo boas horas por aqui estudando suas dicas sobre o nosso mercado, leio tudo...rs. Deixo o meu agradecimento por sua contribuição e também os parabéns pela sua carreira e didática ao falar sobre o tema. Estarei sempre por aqui e talvez tenha honra de lhe encontrar por aí ao vivo numa hora dessas, será um grande prazer. Um grande abraço e muito sucesso, mestre! Att., Dilson Rodrigues/SP

new way 10 anos disse...

Muito bom!!!
Gostaria de aprender mais.

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