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18/04/2015

O palestrante e a "Regra do Tres"

Vou contar um segredo. Um segredo de todo escritor, palestrante e professor. Trata-se de uma regra fácil, útil e poderosa para quem a conhece, aplica e aperfeiçoa. Ela é tão fácil que introduziu você no mundo dos números, lhe ajudou a aprender música e a se precaver de perder a paciência. Ainda não percebeu que regra é essa? Oras, neste parágrafo eu a utilizei algumas vezes e já era para você ter percebido.



Se não percebeu, estou falando da "Regra do Três", na qual minha filha e escritora Lia Persona Hadley é particularmente viciada. Tão viciada que sempre que estamos debatendo algo e ela começa a apresentar seus argumentos, nós sabemos que eles virão em grupo de três. Então brincamos: "Lá vem a Lia com suas três razões, seu 'a, b, c' e '1, 2, 3'".

Qualquer coisa, para permanecer estável, precisa de três pontos de apoio. Pela mesma razão, para permanecer sólido, estável e consistente um argumento precisa vir em três. Afinal, até mesmo sua palestra é construída em três partes: Introdução, Conteúdo e Conclusão. Mas a "Regra do Três" tem razões mais profundas. Suas raízes estão na forma como nosso cérebro processa as informações que recebe.

O número três é o menor conjunto para se criar um padrão. Três pontos é o mínimo para você desenhar uma figura geométrica ou escrever uma história consistente, memorável e permanente. Já ouviu falar dos "Três Porquinhos"? E dos "Três Mosqueteiros"? "Três Patetas"? Pois é, todos eles nos foram apresentados em grupos de três para nossa melhor assimilação, e assim é com toda a informação.

Mas apenas a "Regra do Três" não vai fazer de você um grande escritor, professor ou orador, pela mesma razão que apenas um slogan não causa uma revolução. Foi preciso muito mais que gritar "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" para a Revolução Francesa ser bem sucedida.

Quer mais exemplos de como as coisas vêm em grupos de três? "Um governo do povo, pelo povo e para o povo", "Sangue, suor e lágrimas", "Alma, corpo e espírito", "Pare, olhe, ouça", "Veni, vidi, vici" (traduzido do latim é "Vim, vi, venci"). Às vezes ela não é tão facilmente detectada, mas está na mensagem dos melhores escritores, roteiristas e humoristas. Veja esta frase de um humorista norte-americano brincando com o "Thanksgiving" ou "Dia de Ações de Graças" dos Estados Unidos, que tem também o nefasto significado de ter representado o início da expulsão dos nativos de suas terras e sua ocupação pelo conquistador europeu:

"Celebrei o Thanksgiving à moda antiga. Convidei todos os meus vizinhos para virem à minha casa, onde fizemos um banquete, depois os matei e tomei sua terra" - Jon Stewart

Humoristas utilizam a "Regra do Três" como forma de criar um final engraçado, geralmente distorcendo totalmente o sentido da frase ao dar ao último elemento uma direção inesperada:

"Gosto de vinho tinto, música clássica, e assassinar pessoas".

"Nem tive tempo de levar muita coisa no fim de semana: apenas meias, cuecas e... minha espada ninja".

Esta técnica se vale do funcionamento do cérebro para criar humor. Isto porque o cérebro processa informação em grupos de três, tomando os dois primeiros elementos para criar uma previsão do que será o terceiro. É aí que o humorista cria uma ruptura no pensamento e isso gera risadas. Charles Chaplin dizia que, para criar uma comédia, tudo o que precisava era "uma praça, um policial e uma garota bonita". Você mesmo já usou a "Regra do Três" para fazer humor quando contou uma piada contendo "um padre, um pastor e um rabino" ou "um português, um judeu e um brasileiro".

Uma característica poderosa da "Regra do Três" é que tudo o que vem em grupo de três permanece mais tempo em nossa memória. Talvez isto tenha algo a ver com a música, que é formada por harmonia, melodia e ritmo. Como já se sabe, nosso cérebro processa e armazena informação musical com maior facilidade do que outro tipo de informação. Pessoas com o mal de Alzheimer têm sido trazidas de volta à realidade e ao convívio com a ajuda de músicas que gostavam na infância e adolescência.

Portanto, se você quiser dar uma cadência musical à sua comunicação, é preciso, não apenas estruturá-la com começo, meio e fim, mas semeá-la com a "Regra do Três" sempre que possível. Essa regra é tão incrível, que quando Winston Churchill mencionou, em um discurso, "sangue, sofrimento, lágrimas e suor", a frase que permaneceu como sendo dele na memória popular foi "sangue, suor e lágrimas" (que seria adotada pelo General Patton).

Se você acha que não é bem assim é porque nunca assistiu a uma trilogia, nunca foi a uma peça de três atos e nem __________ (preencha com a terceira para exercitar). Mas, se já estiver convencido, comece a utilizar a "Regra do Três" em sua mensagem falada, escrita ou cantada. Como acabei de fazer. Se for descrever um lugar, uma pessoa ou objeto, diga que a casa era "antiga, fria e sombria", a personagem vestia "calça, blusa e sapatos da mesma cor" e seu carro era "moderno, potente e confortável".

E mais: procure agrupar os três elementos de diferentes maneiras até encontrar uma forma agradável, rítmica e musical. Ou você acha que "suor, lágrimas e sangue" soaria tão bem quanto "sangue, suor e lágrimas"?

9 comentários:

Marcos Antonio Tuler disse...

Texto belo, objetivo e útil. Engraçado! Sempre utilizei a regra do Três na minha fala e escrita, todavia, de forma indutiva. Agora sei que estou no caminho certo.

Marcos Tuler
Palestrante.

Marisa Lima disse...

Adorei esta dica. que me pareceu muito consistente, até porque vc tem provas disso. Nunca parei para pensar sobre, nas minhas conversas, por exemplo. Me ouvirei, tentarei e...ligarei a tv.

Ulisses Fontes disse...

Muito bom, também de forma intuitiva e espontânea, já utilizava essa regra, agora tudo faz sentido!

Ulisses Fontes disse...

Muito bom, também de forma intuitiva e espontânea, já utilizava essa regra, agora tudo faz sentido!

Ju Brito disse...

Maravilhosas, encantadoras e profundas dicas !

Pedro Amaral disse...

Eu sou VICIADO NISSO!
Fiz meu website todo baseado nisso. Inclusive ele lancou ONTEM!
www.pedroamaral.com.br

leandro nunes. disse...

Muito bom!Estou estudando sobre palestras,livros e conteúdo instrutivos,e logo de início encontro estas dicas ensinamentos, que para mim são como; OÁSIS no deserto! Obrigado por dividir conosco suas idéias e experiências.

leandro nunes. disse...

Muito bom!Para mim,OÁSIS no deserto.Fico a pensar o quanto que as pessoas podem ficar encharcadas com essa chuva de informações.Obrigado,continue assim.Muitos iniciantes em palestra como eu, precisamos de ensinadores como você,parabéns.

Pedro Amaral disse...

Eu fiz um VIDEO sobre isso! Espero que gostem :)
https://youtu.be/E67M0XDpgJI

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